Ilustração botânica: conheça a carreira que une ciência e arte.

Segunda-feira, 9 de abril de 2018 às 7h 20

Cenário é inspirador. Um casarão branco, de dois andares, com mais de 1.000 metros quadrados e uma enorme varanda. À frente, um lago cercado por árvores e patos. A Oficina de Ilustração Botânica, ministrada pelo professor Lindolpho Capellari Jr., da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, acontece em um espaço privilegiado: o Centro de Ciência e Museu da Educação Luiz de Queiroz.

Em uma das alas no térreo, alunas atentas, com histórias e objetivos diversos, debruçam-se sobre belas flores. A bióloga e pintora autodidata Norma Hennemann, de 62 anos, viajou de Sentinela do Sul (RS), onde mora, para fazer o curso. “A profissão une a sensibilidade da pintura com as técnicas da ilustração botânica”, diz.

Apesar de ter noções, Isabella Bartholomeu Romano, de 23 anos, fazia seu primeiro curso de desenho. Bióloga formada em 2016, ela pretende seguir carreira na ilustração botânica e estudar na Inglaterra, onde acredita que estão os grandes profissionais. “O curso me ajudou a seguir a realidade da planta”, explica.

Para começar, noções básicas de desenho são bem-vindas. “Costumo dizer aos meus estudantes: pratique aquilo que você tem dificuldade, aquele desenho que não sai tão bom. Não adianta desenhar só o que você já sabe”, diz o professor Lindolpho, conhecido na comunidade da Esalq pela dedicação ao ensino, ao mesmo tempo em que é lembrado pelo grau de exigência. “Quero que o rendimento e o aprendizado sejam os maiores possíveis nesses cinco dias”, diz, referindo-se à duração do curso.

De fato, uma semana é pouco tempo para explorar as técnicas da ilustração botânica. O objetivo do curso é familiarizar os estudantes com a primeira técnica: o lápis. As outras, não abordadas na oficina, são o bico de pena (nanquim) e a aquarela, considerada a técnica mais aprimorada.

É justamente com aquarelas que trabalha a ilustradora Zelinda Jordão, que levou seu trabalho ao museu para mostrar às alunas. Também de Piracicaba, Zelinda teve contato com a pintura botânica em 2000. Antes disso, já era ilustradora. Após aprender as técnicas da ilustração botânica, passou a ensinar.

“É um trabalho minucioso, porque reúne a parte artística e a parte científica”, explica. “O desenho científico exige que o ilustrador seja muito criterioso. É preciso estar atento às medidas, cores, floração, tamanho, sementes, tudo.”

CARREIRA
Não há um caminho definido aos que desejam seguir a carreira, já que não existe uma graduação específica ou um curso oficial. As opções são os cursos livres. Em Curitiba, no ano 2000, nasceu o Centro de Ilustração Botânica do Paraná (CIBP), associação que virou referência na área. Uma das fundadoras da instituição, a ilustradora botânica Diana Carneiro diz que a afinidade com o tema é um facilitador.

“Alguns dos nossos alunos são formados em biologia, engenharia florestal ou outro curso que já despertou essa motivação”, explica. “Mas nem todos os interessados têm intenção de seguir uma carreira na área. Alguns buscam o que chamamos de ‘currículo de autorrealização’.”

>> Confira, em nossa galeria, mais ilustrações e fotos do curso

Diana lecionou biologia na rede pública do Paraná por 25 anos. Nesse período, o desenho científico fez parte de seu dia a dia. O interesse pela ilustração botânica, especificamente, veio mais tarde. Em 1997, conseguiu uma bolsa no renomado Margaret Mee Amazon Trust, na Inglaterra (leia mais no box abaixo).

De volta ao Brasil, percebeu que havia poucas opções para os que buscavam qualificação. Com outras artistas, fundou o CIBP, onde há cursos com duração de uma semana e de um ano. Além disso, é oferecido um curso à distância, o que, segundo Diana, atrai artistas de outros Estados. O CIBP também organiza exposições.

As principais oportunidades de trabalho para o ilustrador botânico concentram-se na área acadêmica, com a elaboração de desenhos para pesquisas e trabalhos. Mas, nos últimos anos, a demanda diminuiu. Para os profissionais da área, houve um corte considerável no investimento e apoio público às pesquisas e universidades, o que cria um efeito dominó: com menos pesquisas, há menos demanda para os ilustradores.

Em meio a tecnologias e câmeras fotográficas digitais, a ilustração permanece como o retrato mais fiel da anatomia da planta. “Nós não dispensamos nenhum facilitador para o estudo e a pesquisa. Se é o caso de apresentar uma ilustração e uma fotografia lado a lado, ótimo. Mas a fotografia não substitui o desenho”, diz o professor Lindolpho.

A ilustração possibilita mostrar um corte da planta com mais precisão, ou ressaltar, com diferentes cores, matizes ou ângulos, certas partes de uma flor. “Exige muita observação. Você passa a olhar para a planta como um ser único. Para mim, isso é muito diferente da fotografia, porque você coloca em evidência o que deseja”, explica Zelinda.

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