Origem dos importados lácteos pode mudas

Preços internacionais em queda livre e produção interna em retração são fatores (apesar da taxa de câmbio desfavorável) que levaram as importações lácteas brasileiras a crescerem quase 50% este ano. As importações lácteas brasileiras até o final do ano estão relacionadas à ocorrência de fatos recentes no mercado internacional (principalmente aos principais fornecedores Uruguai e Argentina).

 

O mercado brasileiro hoje: O mercado doméstico de leite e derivados em geral segue relativamente desconectado dos mercados internacionais, principalmente por conta da Tarifa Externa Comum de 28% e das taxas adicionais antidumping (origens Europa e Oceania), com os preços domésticos, principalmente de queijos e leite em pó, acima das cotações internacionais.

 

Leite UHT tem oscilado por volta dos R$ 2,03, caindo quase R$ 0,10 centavos nas últimas 4 semanas, o leite em pó integral tem poucos negócios com produto nacional por volta de R$ 10/kg (o importado tem chegado a R$ 8,5-9/kg) e a mussarela gira em torno de R$ 14,2/kg (contra uma cotação de R$ 10,8/ kg do produto importado em julho).

 

É provável uma redução de preços pagosaos produtores até o final do ano (num cenário tendencial, estamos projetando cerca de R$ 0,6 centavos/litro de queda na referência média Brasil do CEPEA) com o início do aumento de produçãodo Sudeste e Centro Oeste a partir de Outubro.

 

Acordo comercial Venezuela & Uruguai: O Uruguai vem sendo, em 2015, o principal fornecedor de derivados lácteos importados para o mercado brasileiro. De janeiro a julho deste ano, os lácteos uruguaios representaram boa parte do volume que entrou no Brasil.

 

O Uruguai acaba de sacramentar um acordo para venda de lácteos a Venezuela. Venderão aos venezuelanos, para entrega ainda neste ano, 44 mil toneladas de leite em pó e 12 mil toneladas de queijos.

 

Estes volumes acordados para 2015 são bastante relevantes e já começaram a impactar as vendas uruguaias ao Brasil. Como comparação, entre janeiro e julho deste ano, o Uruguai vendeu ao Brasil cerca de 30 mil toneladas de leite em pó (60% do volume comprado por nosso país). Estimamos que a produção uruguaia (que vem crescendo este ano, em ritmo de 2,8% em relação ao ano passado) seja, entre agosto e dezembro, equivalente a 120 mil toneladas de leite em pó. Assim, as vendas acordadas com a Venezuela (um total de 56 mil toneladas de produtos uruguaios), representarão quase a metade do volume que o Uruguai produzirá até o final do ano. Menos produto para exportar para o Brasil.

 

Incertezas na economia da China: Pegou todo o mercado de surpresa a desvalorização da moeda chinesa frente ao dólar, realizada pelo governo chinês (que controla a taxa de câmbio naquele país) algumas semanas atrás. Os motivos desta medida do governo chinês foram relacionados à manutenção da competitividade das exportações chinesas (e, por conseguinte, ao crescimento da economia daquele país).

 

Objetivamente, esta desvalorização torna os produtos lácteos importados na China mais caros para sua população, o que pode reduzir ainda mais o apetite chinês no mercado internacional. É, portanto, uma medida “baixista” quanto ao cenário de preços internacionais de leite. Por outro lado, tal movimento deve impactar (para baixo) também os preços de grãos, visto que a China também é grande importadora de soja, milho e outros cereais. Este efeito, no mercado de grãos, melhoraria a relação leite/insumos, o que pode incentivar a oferta mesmo com preços pagos ao produtor em baixa.

 

Em resumo, se por um lado o acordo entre Uruguai e Venezuela pode restringir a oferta de derivados lácteos ao mercado brasileiro, por outro lado os níveis de preços internacionais ainda seguem baixos historicamente, afetando direta ou indiretamente o mercado local. A recente desvalorização da moeda chinesa, aliada à perspectiva de desaceleração na economia de lá, é fator baixista no mercado internacional, podendo viabilizar abastecimento de importados no mercado brasileiro, ainda que com taxa de câmbio desvantajosa no Brasil. As fontes potenciais dos importados são, além da Argentina, os Estados Unidos e Nova Zelândia. Neste cenário, o mercado local poderá seguir pressionado; salvo algumas surpresas adicionais à queda da produção nacional que já consideramos no nosso cenário, poderemos ver a partir de setembro ajuste (para baixo) nos preços ao longo de toda a cadeia láctea nacional.

 


Fonte: Mapa - Artigo adaptado.